{"id":119,"date":"2020-10-05T12:00:00","date_gmt":"2020-10-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/viajezapatista.eu\/?p=119"},"modified":"2021-03-14T20:52:29","modified_gmt":"2021-03-14T20:52:29","slug":"sexta-parte-uma-montanha-em-alto-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/viajezapatista.eu\/pt-pt\/sexta-parte-uma-montanha-em-alto-mar\/","title":{"rendered":"Sexta Parte: Uma Montanha Em Alto-mar"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Comunicado do Comit\u00ea Clandestino Revolucion\u00e1rio Ind\u00edgena \u2013 Comand\u00e2ncia Geral do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e9xico. 05 de outubro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao Congresso Nacional Ind\u00edgena \u2013 Conselho Ind\u00edgena de Governo;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 Sexta Nacional e Internacional;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s Redes de Resist\u00eancia e Rebeldia;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s pessoas honestas que resistem em todos os rinc\u00f5es do planeta;<\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3s, irm\u00e3os, <em>irm\u00e3oas;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Companheiras, companheiros e <em>companheiroas;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os povos origin\u00e1rios de raiz maia e zapatista lhes saudamos e lhes dizemos o que chegou em nosso pensamento comum, de acordo com o que&nbsp; vemos, escutamos e sentimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro. Vemos e escutamos um mundo enfermo em sua vida social, fragmentado em milh\u00f5es de personagens alheias entre si, empenhadas em sua sobreviv\u00eancia individual, por\u00e9m unidas sob a opress\u00e3o de um sistema disposto a tudo para saciar sua sede de lucros, mesmo quando \u00e9 claro que seu caminho vai contra a exist\u00eancia do planeta Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A aberra\u00e7\u00e3o do sistema e sua est\u00fapida defesa do \u201cprogresso\u201d e da \u201cmodernidade\u201d se lan\u00e7am contra uma realidade criminal: os <em>feminic\u00eddios<\/em>. O assassinato de mulheres n\u00e3o tem cor nem nacionalidade, \u00e9 mundial. E se \u00e9 absurdo e irrazo\u00e1vel que algu\u00e9m seja perseguido, desaparecido, assassinado por sua cor de pele, sua ra\u00e7a, sua cultura, suas cren\u00e7as; n\u00e3o se pode crer que o fato de ser mulher equivalha a uma senten\u00e7a de marginaliza\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma escalada previs\u00edvel (ass\u00e9dio, viol\u00eancia f\u00edsica, mutila\u00e7\u00e3o e assassinato), com o aval da impunidade estrutural (\u201cela merecia\u201d, \u201ctinha tatuagens\u201d, \u201co que andava fazendo neste lugar a esta hora?\u201d, \u201ccom essa roupa, era de esperar\u201d), os assassinatos de mulheres n\u00e3o tem nenhuma l\u00f3gica criminal que n\u00e3o seja a do sistema. De diferentes estratos sociais, distintas ra\u00e7as, idades que v\u00e3o desde a primeira inf\u00e2ncia at\u00e9 a velhice e em geografias distantes entre si, o g\u00eanero \u00e9 a \u00fanica constante. E o sistema \u00e9 incapaz de explicar porqu\u00ea isto anda em par com seu \u201cdesenvolvimento\u201d e \u201cprogresso\u201d. Na indignante estat\u00edstica das mortes, quanto mais \u201cdesenvolvida\u201d est\u00e1 uma sociedade, maior \u00e9 o n\u00famero de v\u00edtimas nesta aut\u00eantica guerra de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>E a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d parece nos dizer aos povos origin\u00e1rios: \u201ca prova de teu subdesenvolvimento est\u00e1 em sua baixa taxa de <em>feminic\u00eddios<\/em>. Tenham seus <em>megaprojetos<\/em>, seus trens, suas termoel\u00e9tricas, suas minas, suas represas, seus centros comerciais, suas lojas de eletrodom\u00e9sticos \u2013 com canal de televis\u00e3o inclu\u00eddo \u2013, e aprendam a consumir. Sejam como n\u00f3s. Para pagar a d\u00edvida desta ajuda progressista, n\u00e3o bastam suas terras, suas \u00e1guas, suas culturas, suas dignidades. Devem completar com a vida das mulheres\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo. Vemos e escutamos a natureza ferida de morte e que, em sua agonia, adverte \u00e0 humanidade que o pior ainda est\u00e1 por vir. Cada cat\u00e1strofe \u201cnatural\u201d anuncia a seguinte e esquece, convenientemente, que \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de um sistema humano que a provoca.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte e a destrui\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o algo distante, que se limite \u00e0s fronteiras, respeite aduanas e conv\u00eanios internacionais. A destrui\u00e7\u00e3o em qualquer rinc\u00e3o do mundo repercute em todo o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro. Vemos e escutamos aos poderosos recolhendo-se e escondendo-se nos chamados Estados Nacionais e seus muros. E, nesse imposs\u00edvel salto para tr\u00e1s, revivem nacionalismos fascistas, chauvinismos rid\u00edculos e um palavr\u00f3rio ensurdecedor. Nisto advertimos as guerras por chegar, as que se alimentam de hist\u00f3rias falsas, ocas, mentirosas e que traduzem nacionalidades e ra\u00e7as em supremacias que se impor\u00e3o por via da morte e da destrui\u00e7\u00e3o. Nos distintos pa\u00edses se vive a disputa entre capatazes e aqueles que aspiram suced\u00ea-los, escondendo que o patr\u00e3o, o amo, o chefe, \u00e9 o mesmo e n\u00e3o tem mais nacionalidade que a do dinheiro. Enquanto os organismos internacionais se enfraquecem e se convertem em meros nomes, como pe\u00e7as em museus\u2026 ou nem isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escurid\u00e3o e confus\u00e3o que precedem a essa guerra, escutamos e vemos o ataque, cerco e persegui\u00e7\u00e3o de qualquer ind\u00edcio de criatividade, intelig\u00eancia e racionalidade. Frente ao pensamento cr\u00edtico, os poderosos demandam, exigem e imp\u00f5em seus fanatismos. A morte que plantam, cultivam e colhem n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a f\u00edsica; tamb\u00e9m inclui a extin\u00e7\u00e3o da universalidade pr\u00f3pria da humanidade \u2013 da intelig\u00eancia \u2013, seus avan\u00e7os e \u00eaxitos. Renascem ou s\u00e3o criados novas correntes esot\u00e9ricas, laicas ou n\u00e3o, disfar\u00e7adas de modas intelectuais ou <em>pseudo<\/em>ci\u00eancias; e as artes e as ci\u00eancias pretendem ser subjugadas \u00e0s milit\u00e2ncias pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarto. A Pandemia de COVID-19 n\u00e3o s\u00f3 mostrou as vulnerabilidades do ser humano, mas tamb\u00e9m a cobi\u00e7a e estupidez dos distintos governos nacionais e suas supostas oposi\u00e7\u00f5es. Medidas do mais elementar senso comum foram depreciadas, apostando sempre que a Pandemia seria de curta dura\u00e7\u00e3o. Quando o passo da doen\u00e7a foi se fazendo cada vez mais dilatado, come\u00e7aram os n\u00fameros a substituir trag\u00e9dias. A morte se converteu assim em uma cifra que se perde no jornal entre esc\u00e2ndalos e declara\u00e7\u00f5es. Um comparativo f\u00fanebre entre nacionalismos rid\u00edculos. O percentual de tacadas e de corridas limpas que determinam que equipe, ou Na\u00e7\u00e3o, \u00e9 melhor ou pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se detalha em um dos textos pr\u00e9vios, no zapatismo optamos pela preven\u00e7\u00e3o e pela aplica\u00e7\u00e3o de medidas sanit\u00e1rias que, a seu tempo, foram consultados com cientistas que nos orientaram e ofereceram, sem titubear, sua ajuda. Os povos zapatistas lhes est\u00e3o agradecidos e assim queremos demonstr\u00e1-los. Depois de 6 meses da implanta\u00e7\u00e3o dessas medidas (usar m\u00e1scara, dist\u00e2ncia entre pessoas, parar o contatos pessoais diretos com zonas urbanas, quarentena de 15 dias para quem pudesse ter estado em contato com contagiados, lavar frequentemente com \u00e1gua e sab\u00e3o), lamentamos o falecimento de 3 companheiros que apresentaram dois ou mais sintomas associados ao COVID-19 e que tiveram contato direto com contagiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros 8 companheiros e uma companheira, que morreram nesse per\u00edodo, apresentaram um dos sintomas. Como carecemos da possibilidade de provas, assumimos que o total de 12 companheir@s morreram pelo chamado Coronav\u00edrus (cientistas nos recomendaram assumir que qualquer dificuldade respirat\u00f3ria seria COVID-19). Estas 12 aus\u00eancias s\u00e3o responsabilidades nossas. N\u00e3o s\u00e3o culpa da 4T ou da oposi\u00e7\u00e3o, de neoliberais ou neoconservadores, de chairos [os populares que apoiam Lopez Obrador] ou fif\u00eds [como Lopez Obrador chama as elites do M\u00e9xico], de conspira\u00e7\u00f5es ou compl\u00f4s. Pensamos que dev\u00edamos ter extremado mais as precau\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, com a falta desses 12 companheir@s nas costas, melhoramos em todas as comunidades as medidas de preven\u00e7\u00e3o, agora com o apoio de Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais e de cientistas que, a t\u00edtulo individual ou como coletivo, nos orientam no modo de afrontar com mais for\u00e7a um poss\u00edvel renascimento. Dezenas de milhares de m\u00e1scaras (feitas especialmente para evitar que um prov\u00e1vel portador contagie outras pessoas, de baixo custo, reutiliz\u00e1vel e adaptadas \u00e0s circunst\u00e2ncias) tem sido distribu\u00eddas em todas as comunidades. Outras dezenas de milhares est\u00e3o sendo produzidas nos teares de bordado e costura de insurgent@s e nos povoados. O uso massivo de m\u00e1scaras, as quarentenas de duas semanas para quem pode estar infectado, a dist\u00e2ncia e o lavar cont\u00ednuo das m\u00e3os e do rosto com \u00e1gua e sab\u00e3o, e evitar ao m\u00e1ximo sair \u00e0s cidades, s\u00e3o medidas recomendadas inclusive a irm\u00e3os e irm\u00e3s partidaristas, para conter a expans\u00e3o do cont\u00e1gio e permitir a manuten\u00e7\u00e3o da vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O detalhe do que foi e \u00e9 nossa estrat\u00e9gia poder\u00e1 ser consultado em seu momento. Por hora dizemos, com a vida latente em nossos corpos que, segundo nossa valora\u00e7\u00e3o (na qual provavelmente podemos estar equivocados), o enfrentamento da amea\u00e7a como comunidade, n\u00e3o como assunto individual, e dirigir nosso esfor\u00e7o principal \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, nos permite dizer, como povos zapatistas: aqui estamos, resistimos, vivemos, lutamos.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora, em todo o mundo, o grande capital pretende que se volte \u00e0s ruas para que as pessoas reassumam sua condi\u00e7\u00e3o de consumidores. Porque s\u00e3o os problemas do Mercado que os preocupam: a letargia no consumo de mercadorias.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 que retornar \u00e0s ruas, sim, mas para lutar. Porque, como temos dito antes, a vida, a luta pela vida, n\u00e3o \u00e9 um assunto individual, e sim coletivo. Agora se est\u00e1 vendo que tampouco \u00e9 assunto de nacionalidades, \u00e9 mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>_*_<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas destas coisas&nbsp; vemos e escutamos. E muito as pensamos. Mas n\u00e3o s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Quinto. Tamb\u00e9m escutamos e vemos as resist\u00eancias e rebeldias que, n\u00e3o por silenciadas ou esquecidas, deixam de ser as senhas, as pistas de uma humanidade que se nega a seguir o sistema em seu apressado passo ao colapso: o trem mortal do progresso avan\u00e7a, soberbo e impec\u00e1vel, at\u00e9 o penhasco. Enquanto o maquinista esquece que \u00e9 s\u00f3 um empregado a mais e cr\u00ea, ing\u00eanuo, que ele decide o caminho, quando n\u00e3o faz sen\u00e3o seguir a pris\u00e3o dos trilhos at\u00e9 o abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Resist\u00eancias e rebeldias que, sem esquecer o pranto pelas aus\u00eancias, se empenha em lutar por \u2013 quem diria \u2013, o mais subversivo que h\u00e1 nesses mundos divididos entre neoliberais e neoconservadores: a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Rebeldias e resist\u00eancias que entendem, cada qual com seu modo, seu tempo e sua geografia, que as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o na f\u00e9 em governos nacionais, que n\u00e3o se gestam protegidas por fronteiras nem vestem bandeiras e l\u00ednguas distintas.<\/p>\n\n\n\n<p>Resist\u00eancias e rebeldias que nos ensinam, a n\u00f3s zapatistas, que as solu\u00e7\u00f5es podem estar abaixo, nos por\u00f5es e rinc\u00f5es do mundo. N\u00e3o nos pal\u00e1cios governamentais. N\u00e3o nos escrit\u00f3rios das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Rebeldias e resist\u00eancias que nos mostram que, se os de cima rompem as pontes e fecham as fronteiras, resta navegar rios e mares para nos encontrar. Que a cura, se \u00e9 que h\u00e1, \u00e9 mundial, e tem a cor da terra, do trabalho que vive e morre nas ruas e bairros, nos mares e c\u00e9us, nos montes e suas entranhas. Que, como o milho origin\u00e1rio, muitos s\u00e3o suas cores, suas tonalidades e sons.<\/p>\n\n\n\n<p>_*_<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto, e mais, vemos e escutamos. E nos vemos e nos escutamos como o que somos: um n\u00famero que n\u00e3o conta. Porque a vida n\u00e3o importa, n\u00e3o vende, n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, n\u00e3o entra nas estat\u00edsticas, n\u00e3o compete nas pesquisas de opini\u00e3o, n\u00e3o tem valora\u00e7\u00e3o nas redes sociais, n\u00e3o provoca, n\u00e3o representa capital pol\u00edtico, bandeira partid\u00e1ria, esc\u00e2ndalo da moda. A quem importa que um pequeno, pequen\u00edssimo, grupo de origin\u00e1rios, de ind\u00edgenas viva, quer dizer, lute?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ocorre que vivemos. Que apesar de paramilitares, pandemias, <em>megaprojetos<\/em>, mentiras, cal\u00fanias e esquecimentos, vivemos. Quer dizer, lutamos.<\/p>\n\n\n\n<p>E nisto pensamos: seguimos lutando. Quer dizer, seguimos vivendo. E pensamos que durante todos estes anos, temos recebido o abra\u00e7o humano de pessoas de nosso pa\u00eds e do mundo. E pensamos que, se aqui a vida resiste e, n\u00e3o sem dificuldades, floresce, \u00e9 gra\u00e7as a essas pessoas que desafiaram dist\u00e2ncias, tr\u00e2mites, fronteiras e diferen\u00e7as culturais e de l\u00edngua. Agradecemos a elas, eles, <em>eleas<\/em> \u2013 mas sobretudo a elas \u2013, que desafiaram e derrotaram calend\u00e1rios e geografias.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas montanhas do sudeste mexicano, todos os mundos do mundo encontraram e encontram ouvido em nossos cora\u00e7\u00f5es. Sua palavra e a\u00e7\u00e3o foi alimento para a resist\u00eancia e rebeldia, que n\u00e3o s\u00e3o mais que a continua\u00e7\u00e3o das de nossos antecessores.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas, com as ci\u00eancias e as artes como caminho, encontraram o modo para nos abra\u00e7ar e nos alentar, ainda que exista a dist\u00e2ncia. Jornalistas, f\u00edfis ou n\u00e3o, que noticiaram a mis\u00e9ria e a morte antes, a dignidade e a vida sempre. Pessoas de todas as profiss\u00f5es e of\u00edcios que, muito para n\u00f3s, talvez pouco para <em>eleas<\/em>, estiveram, est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E tudo isso pensamos em nosso cora\u00e7\u00e3o coletivo, e chegou em nosso pensamento que j\u00e1 \u00e9 o tempo de n\u00f3s zapatistas correspondermos \u00e0 escuta, a palavra e a presen\u00e7a desses mundos. Os pr\u00f3ximos e os distantes na geografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexto. E isto temos decidido:<\/p>\n\n\n\n<p>Que \u00e9 tempo de novo para que dancem os cora\u00e7\u00f5es e que n\u00e3o sejam nem sua m\u00fasica nem seus passos, os do lamento e da resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Que diversas delega\u00e7\u00f5es zapatistas, homens, mulheres e <em>outroas <\/em>da cor de nossa terra, sairemos a percorrer o mundo, caminharemos ou navegaremos at\u00e9 solos, mares e c\u00e9us remotos, buscando n\u00e3o a diferen\u00e7a, n\u00e3o a superioridade, n\u00e3o a afronta, muito menos o perd\u00e3o e a l\u00e1stima.<\/p>\n\n\n\n<p>Iremos para encontrar o que nos faz iguais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 a humanidade que anima nossas peles diferentes, nossos distintos modos, nossas l\u00ednguas e cores diversas. Tamb\u00e9m, e sobretudo, o sonho comum que, como esp\u00e9cie, compartilhamos desde que, na \u00c1frica que parecia distante, come\u00e7amos a andar no colo da primeira mulher: a busca da liberdade que animou esse primeiro passo\u2026 e que segue andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o primeiro destino desta viagem planet\u00e1ria ser\u00e1 o continente europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Que navegaremos at\u00e9 as terras europeias. Que sairemos e zarparemos, desde terras mexicanas, no m\u00eas de abril do ano de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Que, depois de percorrer v\u00e1rios rinc\u00f5es da Europa de baixo e da esquerda, chegaremos a Madrid, a capital espanhola, em 13 de agosto de 2021 \u2013 500 anos depois da suposta conquista do que hoje \u00e9 o M\u00e9xico. E que, imediatamente depois, seguiremos o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Que falaremos ao povo espanhol. N\u00e3o para amea\u00e7ar, censurar, insultar ou exigir. N\u00e3o para lhe demandar que pe\u00e7a-nos perd\u00e3o. N\u00e3o para lhes servir nem para nos servir.<\/p>\n\n\n\n<p>Iremos a dizer ao povo da Espanha duas coisas sens\u00edveis:<\/p>\n\n\n\n<p>Uma: que n\u00e3o nos conquistaram. Que seguimos em resist\u00eancia e rebeldia.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas: que n\u00e3o tem porqu\u00ea pedir que lhes perdoemos nada. J\u00e1 basta de julgar com o passado distante para justificar, com demagogia e hipocrisia, os crimes atuais e em curso: o assassinato de lutadores sociais, como o irm\u00e3o Samir Flores Soberanes; os genoc\u00eddios escondidos atr\u00e1s de <em>megaprojetos<\/em>, concebidos e realizados para contento dos poderosos \u2013 o mesmo que flagela todos os rinc\u00f5es do planeta \u2013; o alento monet\u00e1rio e de impunidade para os paramilitares; a compra de consci\u00eancias e dignidades com 30 moedas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s zapatistas N\u00c3O queremos voltar a esse passado, nem s\u00f3, nem muito menos de m\u00e3os dadas a quem quer semear o rancor racial e pretende alimentar seu nacionalismo tresnoitado com o suposto esplendor de um imp\u00e9rio, o asteca, que cresceu \u00e0s custas do sangue de seus semelhantes, e que nos querem convencer de que, com a queda desse imp\u00e9rio, os povos origin\u00e1rios desta terra fomos derrotados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem o Estado Espanhol nem a Igreja Cat\u00f3lica tem que pedir perd\u00e3o de nada. N\u00e3o nos faremos eco dos farsantes que se amontoam sobre nosso sangue e assim escondem que t\u00eam as m\u00e3os manchadas dele.<\/p>\n\n\n\n<p>De que nos v\u00e3o pedir perd\u00e3o a Espanha? De ter parido a Cervantes? A Jos\u00e9 Espronceda? A Le\u00f3n Felipe? A Federico Garc\u00eda Lorca? A Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n? A Miguel Hern\u00e1ndez? A Pedro Salinas? A Antonio Machado? A Lope de Vega? A B\u00e9cquer? A Almudena Grandes? A Panchito Varona, Ana Bel\u00e9n, Sabina, Serrat, Ib\u00e1\u00f1ez, Llach, Amparanoia, Miguel R\u00edos, Paco de Luc\u00eda, V\u00edctor Manuel, Aute siempre? A Bu\u00f1uel, Almod\u00f3var e Agrado, Saura, Fern\u00e1n G\u00f3mez, Fernando Le\u00f3n, Bardem? A Dal\u00ed, Mir\u00f3, Goya, Picasso, o Greco e Vel\u00e1zquez? A algo do melhor do pensamento cr\u00edtico mundial, com o selo da \u201c<strong>A<\/strong>\u201d Libert\u00e1ria? A Rep\u00fablica? Ao Ex\u00edlio? Ao irm\u00e3o maia Gonzalo Guerreiro?<\/p>\n\n\n\n<p>De que nos v\u00e3opedir perd\u00e3o a Igreja Cat\u00f3lica? Do passo de Bartolomeu de las Casas? De Don Samuel Ruiz Garc\u00eda? De Arturo Lona? De Sergio M\u00e9ndez Arceo? De la hermana Chapis? Dos passos dos sacerdotes, irm\u00e3s religiosas e seculares que t\u00eam caminhado ao lado dos origin\u00e1rios sem dirigi-los nem suplant\u00e1-los? Que arriscaram sua liberdade e sua vida por defender os direitos humanos?<\/p>\n\n\n\n<p>_*_<\/p>\n\n\n\n<p>No ano de 2021 se completam 20 anos da Marcha da Cor da Terra,&nbsp; que realizamos junto com os povos irm\u00e3os do Congresso Nacional Ind\u00edgena, para reclamar um lugar nesta Na\u00e7\u00e3o que agora desmorona.<\/p>\n\n\n\n<p>20 anos depois navegaremos e caminharemos para&nbsp; dizer ao planeta que, no mundo que sentimos no nosso cora\u00e7\u00e3o coletivo, h\u00e1 lugar para todas, todos, <em>todoas<\/em>. Simples e sensivelmente porque esse mundo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se todas, todos, <em>todoas<\/em> lutamos para levant\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>As delega\u00e7\u00f5es zapatistas estar\u00e3o conformadas majoritariamente por mulheres. N\u00e3o s\u00f3 porque elas pretendem assim devolver o abra\u00e7o que receberam nos encontros internacionais anteriores. Tamb\u00e9m, e sobretudo, para que os var\u00f5es zapatistas deixem claro que somos o que somos, e n\u00e3o somos o que n\u00e3o somos, gra\u00e7as a elas, por elas e com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Convidamos o CNI-CIG para formar uma delega\u00e7\u00e3o para que nos acompanhe e seja, assim, mais rica nossa palavra para o outro que longe luta. Especialmente convidamos uma delega\u00e7\u00e3o de povos que levantem o nome, a imagem e o sangue do irm\u00e3o Samir Flores Soberanes, para que sua dor, sua raiva, sua luta e resist\u00eancia chegue mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Convidamos a quem tem como voca\u00e7\u00e3o, empenho e horizonte as artes e as ci\u00eancias que acompanhem, \u00e0 dist\u00e2ncia, nossos navegares e passos. E que assim nos ajudem a difundir que nelas, ci\u00eancias e artes, est\u00e1 a possibilidade n\u00e3o s\u00f3 da sobreviv\u00eancia da humanidade, bem como de um mundo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo: sa\u00edmos para Europa no m\u00eas de abril de ano de 2021. A data e a hora? N\u00e3o sabemos\u2026 contudo.<\/p>\n\n\n\n<p>_*_<\/p>\n\n\n\n<p>Companheiras, companheiros, <em>companheiroas<\/em>;<\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3s, irm\u00e3os e <em>irm\u00e3oas<\/em>;<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 nosso empenho:<\/p>\n\n\n\n<p>Frente aos poderosos trens, nossas canoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente \u00e0s termoel\u00e9tricas, as luzinhas que as zapatistas demos em cust\u00f3dia&nbsp; as mulheres que lutam em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente aos muros e fronteiras, nosso navegar coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente ao grande capital, uma milpa [cultivo] em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente a destrui\u00e7\u00e3o do planeta, uma montanha navegando de madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos zapatistas, portadores do v\u00edrus da resist\u00eancia e da rebeldia. Como tais, iremos aos 5 continentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tudo\u2026 por hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde as montanhas do Sudeste Mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nome das mulheres, homens e <em>outroas<\/em> zapatistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Subcomandante Insurgente Mois\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e9xico, outubro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Obs: Se \u00e9 a sexta parte e, como a viagem, seguiremos em sentido inverso. Quer dizer, lhe seguir\u00e1 a quinta parte, logo a quarta, depois a terceira, continuar\u00e1 na segunda e terminar\u00e1 na primeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunicado do Comit\u00ea Clandestino Revolucion\u00e1rio Ind\u00edgena \u2013 Comand\u00e2ncia Geral do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional. M\u00e9xico. 05 de outubro de 2020. 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M\u00e9xico. 05 de outubro de 2020. Ao Congresso Nacional Ind\u00edgena \u2013 Conselho Ind\u00edgena de Governo; \u00c0 Sexta Nacional e Internacional; \u00c0s Redes de Resist\u00eancia e Rebeldia; \u00c0s pessoas honestas que resistem em todos os rinc\u00f5es do planeta; Irm\u00e3s, irm\u00e3os, irm\u00e3oas; Companheiras, companheiros e companheiroas; Os povos origin\u00e1rios de raiz maia e zapatista lhes saudamos e lhes dizemos o que chegou em nosso pensamento comum, de acordo com o que&nbsp; vemos, escutamos e sentimos. Primeiro. 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